O primeiro CD que comprei com o meu próprio dinheiro, assim que comecei a trabalhar aos 14 anos (pois é, eu trabalho desde os 14), foi da Elis Regina.
Conheci Elis quando estudei sobre o Golpe e a Ditadura Militar no Brasil. — Sim, houve Ditadura. Estudem! — Quanto mais eu conhecia sua história, mais me encantava. Não demorou para que ela ocupasse um lugar muito especial no meu coração e eu me tornasse fascinada pela sua voz, sua música, toda a sua trajetória e seu posicionamento!
Alguns anos depois, conheci Maria Rita. O primeiro trabalho que ouvi foi Segundo, seu segundo álbum. Lembro-me exatamente de que estava no carro quando ouvi a música “A Festa”. Confesso que, no começo, fiquei um pouco relutante. Gostei muito da voz, das músicas, mas havia em mim uma resistência. Não queria ouvir Maria Rita por causa da Elis, queria ouvir por gostar mesmo.
Pois bem, não demorou muito para ela me conquistar também. A genética realmente foi generosa ali. E, aos poucos, fui entendendo que, apesar das semelhanças inevitáveis entre mãe e filha, elas eram artistas diferentes. Maria Rita nunca precisou ocupar o lugar da mãe para conquistar o dela e, em momento algum, achei que ela estivesse “tentando” imitar a mãe, como algumas pessoas já disseram.
Maria Rita me conquistou. Conquistou muito, eu diria.
Desde então, ela nunca mais deixou o primeiro lugar da minha lista de cantoras favoritas. Sua voz e sua interpretação são impecáveis. Ouvir Maria Rita, para mim, é quase uma oração, me toca de um jeito muito forte. Tenho certeza de que qualquer música cantada por ela fica boa. Se ela cantar “Atirei o Pau no Gato”, certeza que vou gostar.
E, ao mesmo tempo, junto de toda essa admiração, sempre tive vontade de ouvir Elis na voz da filha. Eu sabia que seria uma emoção enorme. Eu tenho dessas coisas, gosto de ouvir canções interpretadas pelos meus cantores favoritos. Mas entendia que isso não seria possível. MR sempre deixou claro que não cantaria as músicas da mãe, postura essa super compreensível. O peso dessa escolha era enorme. As pessoas nem sempre são generosas quando se trata de comparações. Gostam de medir, julgar e distribuir críticas sem pensar no tamanho da responsabilidade que isso carrega.
Aquele desejo ficou guardado e minha paixão por Maria Rita seguia intacta. Eu continuava indo aos seus shows e me emocionando com sua arte.
Nunca fui daquelas fãs que fazem qualquer coisa para estar perto dos seus ídolos. Minha relação com a música e com a artista acontece de outro jeito, mais silenciosa, mais íntima. Ela mora no meu dia a dia. Ouvir Maria Rita, para mim, sempre foi um abraço. Um acalento nos dias difíceis e uma celebração nos dias felizes.
Acredito que a arte faz isso com a gente. Ela oferece colo e ocupa um espaço que parece ter sido feito exatamente para ela.
Até que, em 2012, aconteceu o que eu imaginava impossível. Maria Rita decidiu cantar o repertório de Elis em uma homenagem aos 30 anos da sua partida. Maria, completamente consolidada na música brasileira, com seu lugar ocupadíssimo e por mérito merecido, chegou com a turnê Redescobrir, que depois se transformou em disco — e acabou se tornando um dos meus álbuns favoritos. Um álbum ouvido demais até hoje nas minhas playlists.
Com o tempo, minha esposa também se tornou uma grande fã de Maria Rita. Hoje ela é minha companheira de shows, e eu adoro dividir esses momentos com ela. Ela fala que a voz da Maria Rita é absurda e afinada num nível difícil de encontrar.
Exatos 14 anos depois, ela resolveu nos presentear novamente com a turnê Redescobrir Vol.2. Jamais imaginei que viveria essa emoção outra vez.
Agora, em um momento completamente diferente da minha vida, esse show ganhou um significado ainda maior. Mais madura, mais seletiva com o que ouvir, elas continuam sendo minhas maiores admirações. Maria Rita é uma das maiores artistas da música brasileira, sem nunca deixar de ser ela mesma. E Elis… Elis segue sendo, para mim, a maior voz que a música brasileira já teve.
Mês passado, fomos ao show. Do jeito que eu gosto: sentada na primeira fila, para aproveitar cada detalhe, cada olhar, cada lágrima, cada dança. Eu fico completamente hipnotizada.
Foi lindo e emocionante!
Obrigada, Maria Rita, por compartilhar sua arte conosco. Obrigada por continuar emocionando tantas pessoas com uma voz tão linda, que toca a alma.
Sem dúvida nenhuma, eu estarei sempre aqui, e seus fãs também. Não apenas esperando o próximo show, mas celebrando cada entrega, cada interpretação e cada pedaço de verdade que você coloca no palco.
Acredito que esse show Redescobrir é um encontro, um reencontro, talvez. Não é apenas revisitar as músicas da Elis. É revisitar um pouco das nossas vidas, das pessoas que éramos anos atrás. Da pessoa que eu era quando conheci Elis e do quanto ela já me ensinou com seus posicionamentos, muito além da sua época.
Das letras maravilhosas que trazem tanta reflexão. Do lugar conhecido que me acolhe ao ouvi-las e, principalmente, por ouvi-las na voz da Maria Rita, minha maior admiração. Agora, aos 41 anos, redescubro e revejo o quanto tudo isso faz parte de mim há tanto tempo.
É pura emoção. Elis Regina e Maria Rita, duas pessoas, duas vozes, dois legados essenciais e imortais na cultura do nosso país!
Beijos agradecidos por tanto!

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