quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Vovó Tiana

Minha querida vó Tiana,

Quanto tempo se passou desde que a senhora nos deixou. Durante muitos anos, achei que nunca escreveria nada sobre você, mas algumas situações recentes despertaram tantas lembranças que me fizeram compreender, com ainda mais clareza, o tamanho da importância que você teve — e continua tendo — na minha vida.

Foram apenas nove anos dos meus quarenta vividos ao seu lado, e ainda assim a quantidade de detalhes que guardo na memória me impressiona profundamente.


Uma das cenas que mais gosto de imaginar que poderia acontecer hoje seria um café da tarde: uma mesa bem grande, cheia de coisas gostosas de padaria, cercada por pessoas que amamos — Marisa, Tia Júlia, Tia Cida, Tia Bela, Vivi, minha mãe e a Mariane, que aliás está linda, adulta, casada e feliz. E, depois de toda essa alegria, eu gostaria de um momento só nosso, para te contar tudo o que aconteceu ao longo desses anos.

Lembro com carinho das noites de conversa no seu quarto, ouvindo você contar histórias da sua vida, da sua juventude, de quando conheceu meu avô, de como eram as coisas antigamente. Eram muitas histórias bonitas. Lembro especialmente do triste acidente do Antônio Roberto, um evento que abalou a família toda. Eu ficava impressionada com cada detalhe e sempre queria saber mais. Eu amava aqueles momentos. Também ficava triste quando sua saúde não estava boa, quando o fígado incomodava ou a pressão subia, ou quando alguma situação familiar te fazia chorar. Eu não sabia como resolver nada daquilo, então apenas ficava ali, perto de você.

Lembro que, todo mês, no dia do seu pagamento, você nos dava um dinheirinho para comprar Kinder Ovo — algo muito caro na época, que só podia acontecer uma vez por mês. E o pipoqueiro? Aquela pipoca segue sendo especial até hoje. Sempre que compro, ela me leva direto de volta à infância.

Quando você passava as férias de janeiro na praia da Marisa — sim, para nós a Marisa tinha uma praia — eu morria de saudades. Eu sabia que você sentia ciúmes da vovó Georgina, porque ficávamos empolgados para a viagem, mas não precisava. Eu amo vocês duas da mesma forma. Cada uma ocupa todo o meu coração.

Quando nos mudamos de casa, depois de morarmos oito anos juntos, senti muito a sua falta. Foi ali que comecei a ter medo à noite e acordava assustada muitas vezes. Um pouco depois, você ficou doente e precisou de cuidados. Ficou quinze dias em casa, e cuidamos de você com todo carinho — eu do meu jeito, claro, de uma menina de nove anos. Apesar de não ser um bom motivo, fiquei feliz. Ficamos mais próximas e pude matar um pouco a saudade.

Lembro também de quando assistíamos à novela A Viagem e uma personagem teve um mal súbito e morreu. Na época não entendemos o que havia acontecido, mas depois descobri que foi um infarto. Foi o mesmo que você também sofreu. Era domingo quando fomos te visitar e você não estava bem; aquele já era o início. No dia seguinte, quando minha mãe e a Marisa te levaram ao hospital, você teve outro. Eu não pude mais te ver, mas ia ao hospital todos os dias e ficava lá embaixo, esperando. Aquilo me fazia sentir mais perto.

Confesso que senti raiva do meu tio, que podia entrar e quase nunca ia — foi apenas um dia, exatamente na véspera da sua partida. Hoje entendo que talvez você estivesse esperando aquela despedida. E ainda bem que ela aconteceu.

Das coisas engraçadas que guardo, algumas vezes, quando sua Bíblia sumia antes de irmos à igreja, era eu quem escondia. Eu não queria ir — queria que você ficasse comigo. Nunca deu certo, eu sempre acabava cedendo e devolvendo a Bíblia. Hoje não frequento mais a igreja, mas sigo com minha fé, de um jeito mais livre, mais leve, sem peso.

As tardes de futebol no quintal da sua casa eram minhas preferidas, com Mateus, meu pai, tio e primos. Parei de jogar bola perto dos 18 anos, por falta de tempo e depois por causa das dores de cabeça. Tenho cefaleia crônica, e esforços maiores não me fazem bem. Falando nisso, tenho outra memória boa: uma vez trinquei o pulso e, como não sabia, fui para a escola. Estava com muita dor, então a professora ligou para alguém me buscar. Como minha mãe trabalhava, a senhora foi. Lembro perfeitamente de nós duas voltando a pé para casa, você carregando minha mochila. Gostei muito do nosso mini passeio.

Continuo amando macarrão na manteiga. Obrigada por ter feito tantas vezes para mim. Amo assistir a filmes e sou corinthiana por sua causa.

Me formei em Engenharia — você ficaria orgulhosa demais. Tenho um bom emprego e uma vida tranquila e abençoada.

Tive relacionamentos com homens, mas não deu certo por um motivo simples e difícil ao mesmo tempo: eu não sinto atração por homens. Demorei para entender e aceitar isso. Não sei como você reagiria, talvez fosse diferente, mas acredito de verdade que você entenderia meus sentimentos e me apoiaria. Eu gostaria muito disso. Não foi fácil no começo e ainda é um assunto delicado. Mas o mais importante é que encontrei o amor da minha vida. Casei e hoje sou muito feliz. Estamos juntas há 12 anos e planejando ter um filho.

Por aqui, todos estão bem: minha mãe, meu pai, Mateuzinho e Mariane.

Sinto muito a sua falta e tenho um orgulho imenso de ter sido sua neta. Obrigada por tudo o que fez por nós. Sempre que falo de você, sinto uma saudade bonita, nostálgica e amorosa.
Você vive em mim de tantas formas.

Aguardo nosso reencontro — sei que será lindo. Te amo muito. Espero que aí em cima já estejam preparando a mesa do café. Um dia estaremos todos juntos novamente.

 Marcella Vecchi



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