terça-feira, 19 de novembro de 2019

Dia da Consciência Negra



O dia da consciência negra está longe de ter a dimensão de consciência que realmente precisa! 



O racismo no Brasil é institucional, está enraizado nas pessoas.
As pessoas precisam entender que os negros tem 500 anos de história de prejuízo e que 100 de liberdade é muito pouco contra centenas de escravidão, humilhação.

Durante 500 anos os Africanos foram tirados de seu país, de suas origens, de suas crenças e cultura e enviados para o outro lado do mundo como mercadorias, sem valor algum, vistos e tratados como objetos. O Brasil foi o último País a abolir a escravatura e não porque a Princesa Isabel  era legal e boazinha, mas sim por questões políticas e pressão absurda dos europeus, ela não teve outra escolha. 

Quando a lei Áurea foi assinada, essas pessoas que viveram 500 anos como escravos, foram largados para se virarem. Eu tentei achar outra palavra mas "largados" é a que melhor explica o que de fato aconteceu. Não houve uma ajuda do governo estabelecido, não houve um subsídio, mesmo que mínimo. Eles não conseguiam emprego porque os empregadores só queriam mão de obra europeia. Não havia lugar para morar. A maior prova disso é que a grande maioria nas comunidades é negra, pois esse foi o lugar onde eles se instalaram. 

Entre estudar e trabalhar para ajudar na renda da família para ter o comer na mesa, é óbvio que a segunda opção sempre foi a escolhida. Consequentemente eles estão em total desvantagem para concorrer com um branco e ter as mesmas oportunidades. Por isso ocupam posições inferiores, em sua maioria. Entendem o motivo dessa desvantagem, foi a forma que encontraram para sobreviver em um país que faz distinção pela cor da sua pele.

As estatísticas mostram isso: 

Negros recebem 37% a menos que brancos 
- 60% dos desempregados são negros 
- Negros ocupam apenas 18% dos cargos de liderança
- 60% da população prisional é negra ou parda


Sou 100% a favor das cotas nas universidades e o motivo disso é apenas para dar aos negros, esses dessa história toda que falei aí em cima, a mesma oportunidade que um branco que NÃO tem 500 anos de prejuízo na história, estudar e quebrar esse ciclo. Mas acima de tudo isso, arrancar de dentro de nós mesmo, todo e qualquer preconceito idiota que possa existir por conta da tão irrelevante diferença cor de pele.

"Oded Grajew, presidente do conselho deliberativo da organização, diz que o preconceito social no País passa também pelo racismo. “Só não concorda quem não acompanha o dia a dia da vida brasileira. Um negro que dirige um carro médio, por exemplo, é parado diversas vezes pela polícia, ou quando vai a um restaurante, avisam a ele que a entrada de serviço é do outro lado. Para curar qualquer doença, é preciso reconhecer a doença”, afirma."

Um abraço,

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Sobre a morte


Hoje o dia começou normal e no caminho para o trabalho a Chiaro me liga. Ela é uma daquelas amigas que a gente sabe que vai ter pra vida inteira, então atendi muito feliz, inclusive tinha acordado com uma saudade dela e da Karina e ia mandar msg no nosso grupinho falando isso. Mas não deu tempo, ela estava chorando e dizendo que o irmão da Karina havia morrido. Não conegui acreditar de cara, liguei pra Karina na mesma hora e infelizmente descobri que era verdade. Ela estava chorando muito me fazendo entrar em desespero e começar a chorar também. 
Se tem uma coisa que eu sinto muito orgulho e satisfação é dos amigos que tenho. Amigos que apesar de qualquer distância, sempre estarão lá para mim e eu para eles. Amizade é algo que dou muito valor tanto para as velhas qto para as novas que estão nascendo. E Deus sempre colocou e coloca pessoas especiais no meu caminho. 
Não pensei meia vez, liguei para o Maron, outro desse amigos especiais e fomos ao velório e enterro do Leandro. Eu sinto que se eu nao tivesse feito isso a amizade não teria sentido, eu e os amigos precisavam estar lá, dando o suporte necessário nesse momento onde não existem palavras, apenas um abraço que traduz o "estou aqui com vc". 
O dia de hoje foi sem dúvida alguma, um dos mais tristes da minha vida. E é por isso que estou colocando tudo isso aqui, em forma de desabafo. Ver pessoas que eu amo sofrendo, ouvir o choro de desespero da mãe do Lê, as coisas que ela falava pra ele, ver a Ka daquele jeito, foi absurdamente dolorido. Estou destruída. Não há uma explicação lógica para isso que aconteceu e mesmo que a achemos, não irá diminuir a dor. 
Nunca estaremos preparados para a morte!

Conversando com a Michele, ela disse que Deus pode dar forças e consolo e é isso que farei, pedir a Deus muita força para eles. 

Ka estamos pra aqui pra vc, infelizmente não posso tirar sua dor mas posso te ajudar, mesmo que minimamente, a enfrentá-la
Amamos vcs!

terça-feira, 24 de setembro de 2019

O ônibus da minha infância!

Quem escreveu este texto foi minha mãe maravilhosa (a verdadeira escritora rs). Com ele ela ganhou, em primeiro lugar, o prêmio de melhor crônica da Academia Brasileira de Letras do Estado de São Paulo. Ela arrasa e me deixou postá-lo aqui. Espero que curtam, é emocionante:

Por: Aparecida Maria dos Santos Vecchi

Na minha infância e até quase à adolescência já, o horário de verão era um forte aliado para as nossas brincadeiras, criações e nossos faz-de-conta, porque ele esticava o dia e encurtava a noite, tempo para dormir.
Éramos dez filhos, sete meninas e três meninos. É claro que os meninos não participavam desses delírios, pois já eram adultos e trabalhavam para ajudar no orçamento da casa. As duas mais velhas também, na época da “panha” de algodão, iam e ficavam no sítio dos meus tios até acabar a colheita e fora disso trabalhavam, prestando serviços domésticos às conhecidas da mamãe, para poderem comprar suas coisinhas.



Restava nós cinco para criar as mais deliciosas brincadeiras e aventuras por este mundo afora. Eu digo, por este mundo, porque tínhamos um ônibus. Azul claro. Velho.  Sem rodas e sem os vidros das janelas;  alguns assentos quebrados, outros quase inteiros, só rasgados e com os enchimentos saltando pelos buracos dos estofamentos; as ferragens cheias de ferrugem. Aquele bagageiro sobreposto onde os passageiros subiam por uma escada na traseira, para ali, colocarem suas bagagens. Ele era muito antigo, com um focinho comprido. Um ônibus de verdade. O ônibus que transportava nossa alegria. O assento do motorista estava lá, no lugar dele, imponente e a sua frente, a direção. Sucata que ficava no quintal do vizinho, proprietário de uma empresa de transportes de pessoas em Pereira Barreto, o Sr. João Galhardo.  Morríamos de vontade de entrar num daqueles outros de verdade que ainda funcionava e neles viajar com toda a família.  No “nosso”, eu digo nosso, porque nos sentíamos proprietárias dele enquanto o seu dono não estava por lá, nós viajávamos muito, atravessávamos o horizonte e o arco íris.  Ora ele se transformava em navio e cruzávamos mares e oceanos, ora em avião e nos levava a voar pelos céus, livres pela imensidão azul, cortando nuvens e chegávamos perto do sol de dia e da lua à noite. Viagens imaginárias, ricas, lindas e inesquecíveis.

Como era bom. Saíamos em viagem muito cedo, na nossa imaginação, porque na realidade, elas aconteciam no período da tarde, depois de ajudarmos nos afazeres da casa com a mamãe ... Imaginem minha mãe com doze pessoas na casa, para lavar as roupas, passar, cuidar de tudo e ainda lavar roupas para duas casas de família, era lavadeira. 
Éramos solidárias a ela, mesmo a contragosto e com muita pressa.
Eu gostava mesmo era de dirigir ou de ser a cobradora. A viagem sempre era muito longa, mesmo porque não conhecíamos nenhum lugar, a não ser a nossa linda Pereira Barreto, a Palestina e o Guarda  Mor,no interior de São Paulo. Esta última onde moramos até os seis anos de idade antes de irmos para a atual. Em Palestina fomos  uma vez, na boléia do caminhão que ia às compras uma vez por mês.. Uma viagem incrível.

Com o nosso ônibus, passávamos sobre lindas matas verdes, por pontes e rios caudalosos, um deles é o Rio Tietê, onde as águas são límpidas e ainda abastecia a cidade naquele tempo, e sentíamos o vento bater na nossa cara e desmanchar os nosso cabelos  encaracolados e bem cuidados pela mamãe, às vezes com duas tranças. Mas eu tinha muito medo de cair quando sobrevoávamos o rio...
Nunca chovia nesses dias. Os dias eram sempre lindos e ensolarados. Não tínhamos sequer o dever de abastecer o tanque de combustível.  O que tinha era suficiente para sonharmos. E íamos e vínhamos com muita frequência a muitos lugares dos quais só  ouvíamos falar no rádio, porque televisão não havia naquele tempo lá. Mas todos eles eram lindos.

Como éramos felizes!

Só retornávamos quando o sol estava se pondo e ouvíamos o chamado de mamãe para tomarmos banho, jantar e lavar a louça. Éramos incansáveis. Ainda nesse restinho de dia, já embocando na noite, inventávamos outras brincadeiras, como lenço atrás, passar anel, esconde- esconde... só não podia sujar as roupas e os pés. Tínhamos de estar limpos na hora de dormir para não sujar os lençóis branquinhos que eram quarados e fervidos até brilharem ao sol.
À noite, já deitadas, planejávamos a viagem do dia seguinte, sonhávamos acordadas e de cansaço dormíamos. Não tinha malas. Nenhum preparativo. Mas certamente iríamos desbravar estradas jamais trilhadas por nós, caminhos jamais percorridos na manhã seguinte. Ora de ônibus, ora de navio, ora de avião, porque o nosso ônibus era mutante e sempre voltávamos felizes com o seu desempenho e com a sensação de termos ido longe, muito longe. E a gente não se cansava de sonhar... sonhar.    A gente acreditava ter conhecido o mundo inteiro.

Um dia, meu pai construiu uma casa meio longe dalí  e nos mudamos para ela,  perdendo então o privilégio de ser vizinhos e, portanto o acesso ao quintal do seu João Galhardo. Mas ele ficou lá à espera dos novos vizinhos para fazer-lhe companhia nas horas de solidão. Que saudade de você, “nosso” ônibus companheiro das tardes quentes e alegres de Pereira Barreto.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Sexo - Proíbido para menores




O título dessa postagem é de pura sacanagem, é justamente pra mostrar o quão Tabu esse tema é.
(você veio ler achando que era um texto picante né, me perdoe...não será vez...kkk)

Mas vamos lá, sexo é a coisa mais natural e espontânea desse mundo, você e eu só existimos pq ele aconteceu, o mundo só existe pq desde sempre as pessoas fazem isso.
E sabe o que é mais engraçado, ele é completamente intuitivo. Não existe uma aula pra vc aprender. Claro que existem dúvidas, aprimoramentos (se é que podemos dizer assim) mas é algo natural em nós, já nascemos sabendo, sentindo, desejando.

O grande objetivo dessa postagem é expor pq esse assunto é um assunto tão difícil de ser falado. Porque as pessoas sentem tanta vergonha, a começar pelos pais. Eu conheço pouquíssimos pais que falam abertamente com seus filhos, casais não falam abertamente sobre isso entre si (o que eu considero absurdo!). É só surgir esse tema que já começam as risadinhas e comentários ajudando apenas a deixar o assunto mais "vergonhoso" do que já é.

Quando eu tinha 7 anos, lembro de estar assistindo jornal e foi falado sobre um caso de estupro, virei pra minha mãe e perguntei: - mãe o que é estupro? Ela pensou por alguns segundos e respondeu: é enfiar uma coisa aqui (apontou para a vagina), falou isso e saiu da sala demonstrando que não era pra fazer mais perguntas.
Vocês não tem idéia do que passou pela minha cabeça. Como assim enfiar uma coisa aliiii? Eu pensei em tantas coisas....e o homem? será que ele pode ser estuprado também? Será que enfiam alguma coisa no “pipi” dele?? Credoooooo!!
Bem, depois de algum tempo eu descobri o que de fato era o um estupro. Continua sendo horrível, mas acho que minha mente na época foi um pouco mais longe.

Não posso julgar minha mãe pela resposta. Tenho certeza que ela foi pega de surpresa e foi a forma mais fácil que achou de responder a uma criança de 6 anos.
E assim acontece muitas vezes, os pais não se prepararm para o assunto, evitam perguntas e quanto menos se fala mais curiosidade se gera.

Entre casais é o cúmulo maass acontece. As pessoas tem vergonha de falar o que gostam ou como gostam, de conversar sobre o assunto abertamente, de expor seus medos, desejos, curiosidades.
Uma amiga me falou uma vez que tinha vergonha que seu marido passasse pomada íntima nela. Eu falei: What??? Pois é galera, pra você verem o nível.

De verdade, não sei porque esse assunto é tão Tabu.
O lugar onde as pessoas se sentem mais a vontade pra falar é em uma roda de amigos ou em grupos de amigos do whatsapp.
Quando essas conversas acontecem percebemos que muita coisa do que achamos é paradigma. Descobrimos que o que achávamos ser anormal é completamente normal e comum.
Descobrimos que os medos são normais, as dúvidas são as mesmas, as pessoas tem seus desejos, tem gente que gosta de uma coisa, gente que gosta de outra, tem quem sente dor, quem não sente, quem gosta muito, quem gosta pouco e por aí vai. Tudo é natural, normal e comum!! 

Eu percebo que existe até um julgamento em cima de quem fala sobre isso, quem fala abertamente sem receios é tachado de "safada ou safado". Claro que isso é pior para mulheres. 

Não quero dizer que temos que falar só disso, mas sim, que esse deve ser um assunto normal, como qualquer outro.
Ainda não tenho filhos, mas pretendo ter uma comunicação totalmente aberta com eles. Criança não tem maldade, quem tem é adulto. É bom que eles saibam tudo antes da maldade chegar.
É importante a criança ter com quem tirar dúvidas, ter liberdade pra perguntar sem medo.

Sexo e prazer são tão parte do nosso corpo como respirar, se alimentar ou ir ao banheiro. Faz parte do nosso organismo. Fomos criados com isso e parar fazer isso. 
Vamos ter a mente aberta sobre o assunto e claro, nunca deixar de respeitar os outros.

Permitam-se mais e libertem-se de alguns paradigmas criados que não fazem sentido e não agregam! 

Um abraço, 
Marcella Vecchi